Jamie Cullum – Interlude (2014)

Menos Pop e mais Jazz, menos canções próprias e mais regravações. Um ótimo trabalho do inglês

por brunochair

Jamie Cullum, para os desavisados e não conhecedores da obra dele, é cantor e compositor inglês de Jazz Contemporâneo. É conhecido também pelas suas apresentações bastante contagiantes, até incomuns para um músico de Jazz. Além disso, Cullum é conhecido também por transpôr os limites do estilo, e talvez seja este o grande trunfo dele enquanto músico, ao trabalhar numa linhagem do Crossover Jazz – que incorpora elementos da World music, Rhythm and Blues e a Pop music.

A incorporação destes diversos elementos musicais e esta energia e vibração nos shows ao vivo trouxeram uma leva de críticas de um público mais especializado no Jazz, que consideravam o que o cantor fazia como algo parecido com o Jazz, mas não aceitando defini-lo neste estilo. Mas, conforme Cullum lançava álbuns, consolidava-se como um representante forte do estilo na contemporaneidade, quer críticos mais conservadores gostem ou não.

Cullum também é conhecido por regravar músicas Pop, dando a elas um arranjo inovador e, via de regra, próximo ao do Jazz. Uma das mais conhecidas é “Please Don’t Stop The Music”, que originalmente foi gravada pela Rihanna e fez bastante sucesso. A versão original da Rihanna é basicamente eletrônica, música pra tocar na pista. Jamie Cullum deve ter ouvido a música, gostado do ritmo e deve ter pensado: “acho que dá pra fazer alguma coisa diferente aí”. O resultado, vocês conferem abaixo. A original da Rihanna, e depois a dele:

Além desta música, Cullum gravou canções de artistas tão distintos quanto Radiohead e Jimmy Hendrix, e evidentemente de artistas do Jazz como Nina Simone, Herbie Hancock, Cole Porter. Ainda sobre a influência pop sobre sua música, o cantor diz que não havia como não incorporar o pop como núcleo criativo de composição, tendo em vista que ele foi influenciado musicalmente não somente pelo Jazz. Por essas regravações e por ter criado um estilo próprio, Jamie Cullum alcançou um certo reconhecimento no cenário pop. Tornou-se um músico expansivo, sem qualquer tipo de preconceitos, e por conta disso seus concertos são para um público amplo – não somente o especializado em Jazz.

Porém, o que percebe-se neste novo álbum chamado Interlude é o seguinte: Jamie Cullum sente-se mais à vontade, após conseguir criar o seu público cativo, a voltar sua composição ao Jazz. Nesse álbum, não há uma música que seja segmentada para o Pop. São arranjos mais elaborados, que transitam pelo Jazz e pelo Blues, outro estilo que o inglês arrisca transitar. Outro detalhe importante deste álbum é a quantidade de regravações: Jamie Cullum vinha dedicando-se a compor suas próprias músicas nos últimos álbuns, e neste o que percebe-se é o contrário: um festival de regravações.

Temos duas versões muito interessantes. A primeira é o dueto de Jamie Cullum com Laura Mvula, cantora de Jazz inglesa da nova geração. Os dois cantam “Good Morning Heartache”, música originalmente de Billie Holliday. Aqui percebe-se o extremo cuidado de Cullum em regravar uma canção da Lady Day, um respeito enorme por esse ícone do Jazz. O arranjo é simples, e o que fica muito em evidência é a bela disposição das vozes do dueto:

Outro dueto interessante se dá na música “Don’t Let Me Be Misunderstood” entre Jamie Cullum e o seu convidado Gregory Porter, outro expoente do novo cenário mundial do Jazz. Essa música tem versões de The Animals, Santa Monica, Joe Cocker, Nina Simone. Porém, percebe-se que a música ganhou uma roupagem um pouco menos festiva nas mãos do dueto Cullum/Porter. Tem o peso de um duelo, de um confronto. Ou seja, ainda que seja uma canção que apresenta diversas regravações, esta versão apresenta mais uma face da música que ninguém havia abordado.

Esta maior influência jazzística no novo álbum do cantor e compositor inglês é proveniente de um contato ainda maior com o estilo, a partir do momento em que Cullum começou a apresentar um programa de jazz na rádio BBC. Foi lá que ele conheceu Benedic Landin, que é um expoente importante do estilo na Inglaterra, responsável (assim como Cullum) pela sua reformulação. Os dois decidiram somar esforços, ouvir músicas, promover jam sessions. Landin acabou por aceitar a proposta de ser produtor do álbum de Jamie Cullum. Somados a ele, outros músicos de Jazz ingleses da nova geração, James Allsopp (sax, clarinete) e Ross Stanley (piano) contribuem muito para o refinamento Jazz deste álbum.

Importante ressaltar outras duas questões: apesar do novo trabalho soar muito mais Jazz que pop, o produtor Landin apostou em tornar os arranjos muito simples, para que prevalecesse o feeling e a voz do cantor. Outra questão é a gravação do álbum ser nos moldes mais antigos, com os músicos todos tocando em um amplo espaço do estúdio livre, todos juntos, um observando a gravação do outro. Como se sabe, as gravações hoje (via de regra) são em estúdios com ambiente fechado: o músico vai lá naquele canto, grava seu instrumento e depois ouve o que produziu. Ou seja, acompanha apenas o seu (e somente o seu) processo. A ideia de gravar todo mundo os seus instrumentos num mesmo espaço livremente é despertar ainda mais a capacidade de criação e interação, o que parece ter dado resultado em Interlude. Abaixo, um pequeno trailer desenvolvido sobre a gravação do álbum, para quem ficou com curiosidade:

A conclusão que se chega sobre Interlude, portanto, é essa: menos pop, mais Jazz, menos canções próprias e mais regravações. De qualquer forma, a marca Jamie Cullum de música continua bastante perceptível pelos poros de todas as músicas do novo trabalho. Outras canções que se destacam, além das já citadas acima, são “Interlude”, “Don’t You Know” (uma bela canção de blues) e “The Seer’s Tower”, que é uma regravação de um músico Jazz contemporâneo chamado Sufjan Stevens. No fim das contas, a impressão que se passa é a de que o músico está cada vez mais à vontade para criar aquilo que lhe interessa, tanto no Jazz quanto no Pop, ou Blues.

Para quem já gosta do cantor, não haverá decepções, talvez surpresa. O que importa, no fim das contas, é a boa qualidade do álbum.

escut652_wp Autor

Comentários

    […] Ou seja, José James não possui um território definido na música. Avaliando Yesterday I Had The Blues – The Music Of Billie Holiday, chega-se à conclusão que é um excelente tributo, porém “clássico” demais. Como exemplo, temos a canção “Good Morning Heartache”, a primeira do disco. É um belo registro, mas perde em frescor para a regravação feita por Jamie Cullum e Laura Mvula para o disco de Cullum do ano passado, Interlude. […]

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