Lenny Kravitz – Strut (2014)

Parece anúncio e nome de perfume, mas trata-se do novo (e bom) álbum do Lenny Kravitz

por brunochair

Pela capa, poderia-se pensar que o Lenny Kravitz está lançando uma nova linha de perfumes para concorrer com a Christina Aguillera, Britney Spears e Antonio Banderas, mas trata-se do lançamento do décimo álbum de estúdio de Lenny Kravitz, chamado Strut. A capa mostra bem o que é Lenny Kravitz, um músico que paga de modelo. Ou, no fim das contas, teria ele trocado de profissão? Tornou-se modelo? Ou será que ele ainda dispensa algum tempo para fazer música?

Você acessa o site do tiozão (sim, ele recém completou cinquenta anos em maio) e o que mais tem é fotos. Jaqueta de couro, botas invocadas de um material que desconheço, camisa aberta mostrando o peitoral definido, sem camisa mostrando as tatuagens e a boa forma física. Antes de mais nada, ele vende uma imagem.

Se você não conhece a carreira do músico, talvez acredite que tenha entrado num portfólio de um cara que luta caratê e é modelo nas horas vagas. Brincadeiras à parte, essa é uma discussão que permeia a carreira de Kravitz: até que ponto essa superexposição é favorável à sua carreira? Será que atrapalha o seu trabalho como músico? Complementa? O público perde o interesse ou fica ainda mais interessado por ele?

Vamos ao que interessa, resenhista de uma figa?

 

Antes de responder (ou não) essas questões, importante uma digressão acerca da carreira de Lenny Kravitz como músico. Primeiramente, este álbum (Strut) é o décimo de uma carreira já bastante consolidada. O cantor emplacou diversos hits de rádio, alcançou altas vendagens em discos anteriores e é muito respeitado no meio musical. Quando vai a estúdio, Lenny Kravitz geralmente é responsável pela gravação de todos os instrumentos musicais. Também trabalha na produção de seus discos. Ou seja, Lenny Kravitz é um excelente músico, bastante perfeccionista.

Em Strut, numa ficha técnica não oficial que está pela internet, mais uma vez observa-se que ele foi responsável pela gravação de todos os instrumentos, sobretudo guitarra, baixo e bateria. Aliás, nota-se durante todo o álbum que estes três instrumentos estão muito perceptíveis, e em completa harmonia. No fim das contas, como o cantor é responsável pela gravação, a coesão toma conta de todo o material, não há disputa por espaços e não silêncios, e o resultado é muito bom.

A equalização do álbum inteiro é perfeita. Os instrumentos não estouram em graves, a sonoridade do álbum parece tomada por uma leve neblina que entorpece, mas ao mesmo tempo não apaga nada. É como o cinza da capa, que não esconde muita coisa, talvez até realce alguns condicionantes: os instrumentos ficam mais perceptíveis, em consequência Lenny Kravitz fica mais evidente, como se estivesse no controle de cada detalhe.

Lenny Kravitz recebe influências do rock, do blues, do funk e soul americano. Como suas grandes referências, podemos citar Marvin Gaye, Michael Jackson, Donny Hatthaway, Prince. Há muito tempo desenvolve uma sonoridade interessante, que agrada ao público destes três estilos citados. De alguma forma, soa retrô, mas calcado nesse visual moderno. No entanto, há alguns anos tem sido uma figura apagada, em que a aparência tem aparecido muito mais que as próprias músicas.

Porém, em Strut há uma grata surpresa: desde a época de “Again” e “Fly Away”, Kravitz não entrega um trabalho tão interessante ao público, repleto de boas músicas que tem alta potencialidade a tornarem-se hits. “The Chamber”, escolhida para ser a primeira música de trabalho do cantor, já mostra essa boa vocação radiofônica: uma música dançante ao extremo, com uma linha de baixo muito criativa, quiçá a melhor do ano; bateria eletrônica, licks de guitarra fazendo efeito e algumas palmas no refrão. Uma bela música de pop barra rock, que dá uma lição a garotada que tá aí louca pra tocar em rádio e não consegue emplacar tantas músicas boas, como Tokio Hotel, Sia, Kyla La Grange.

Outra boa música é “New York City”. Uma guitarra funkeada que segue a mesma toada por toda a música, mais uma linha de baixo muito bem executada e um vocal levemente agressivo, pra validar a letra da música. Algumas palmas no refrão. Aliás, recurso este (palmas) bastante utilizado neste álbum, o que o Kooks também utiliza com frequência em seus trabalhos. A música é até longa para uma canção pop, mas tem tantos recursos e o groove é tão bom que parece não ter seus seis minutos e vinte e dois segundos.

“The Pleasure and the Pain” é uma música estilo baladinha. Ela tem a cara de uma baladinha Lenny Kravitz, como se já tivéssemos escutado aquilo em algum lugar. Conforme a música vai passando (muito boa, por sinal) logo é possível fazer a conexão com outra música muito bacana da discografia do Lenny Kravitz, chamada “Can’t Get You Off My Mind”. Abaixo, as duas músicas para apreciação.

As três músicas citadas são as que considero excelentes neste novo álbum. Isso não quer dizer que as demais são medianas ou ruins. Há sim algumas fracas, como é o caso de “Dirty White Boots”, “I’m a Believer” e a música que dá nome ao álbum, “Strut”. “Happy Birthday” lembra “Sugar” do Maroon 5, aquela típica música bobinha que a gente até aceita por ser bonitinha.

“Sex” tem aquela pegada dançante do início do álbum, mas não chega a ser genial como é as duas primeiras músicas citadas, “New York City” e “The Chamber”. “Frankestein” tem uma pegada blues rock, até aparece um coral de mulheres cantando, mas não empolga tanto. “She’s a Beast” é uma baladinha assim como “The Pleasure and the Pain”, e é uma boa canção também. Mas, nem tanto quanto a já citada. “I Never Want to Let You Down” e “Ooo Baby Baby” fecham o álbum. Duas canções que também são baladas, que possuem bastante influência de guitarras e metais, lembrando bastante o que o cantor já produziu em outras canções, como “Let Love Rule”.

Portanto, podemos dizer que Lenny Kravitz em Strut continua fiel às suas antigas produções, e incrementou neste álbum algumas linhas dançantes. Entregou ao público um ótimo álbum de pop/rock, repleto de referências a outros estilos, bem ao modo Lenny Kravitz de fazer música. Agora, voltemos às questões anteriores, elencadas ali em cima: será que vale a pena respondê-las? Embora haja toda essa marra e pose de modelo, a música que Kravitz produz é muito vigorosa, e para quem gosta de música é isso que importa. O músico sempre terá essa verve de modelo da Hugo Boss ou Giorgio Armani, mas continuará produzindo boas canções.

É o que se espera, pelo menos.

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