Daft Punk – Random Access Memories (2013)

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Um disco que nasceu fazendo parte da história

Por Lucas Scaliza

Mais de um ano após o lançamento de Random Access Memories e o disco continua soando tão bonito, bem construído e empolgante como na época de seu lançamento, marcado por polvorosa excitação.

O duo de robôs franceses do Daft Punk, um dos grupos de música eletrônica mais influentes dos últimos 20 anos, é formado pelos músicos e DJs Guy Manuel de Homem-Cristo e Thomas Bangalter, que eram dois jovens egressos de uma classe média enriquecida da França nos anos 1990 quando começaram a fazer música. Hoje são milionários, claro. E até o ano passado, nunca haviam aparecido publicamente sem seus capacetes. Isso fazia parte da mágica: ninguém sabia quem eram os robôs, com exceção de seus colaboradores.

Random Access Memories é o quarto disco da carreira da dupla e veio ao mundo após um hiato de oito anos. Tempo grande o suficiente para que muito hype fosse criado em torno do próximo trabalho, principalmente considerando o sucesso de Discovery (2001) e da modernosa e exitosa turnê de Human After All (2005). Antes de falar do disco em si, é bom falarmos do marketing que antecipou o lançamento do álbum em 2013, que é tão incrível quanto o próprio disco.

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Marketing de guerrilha

Para começar, vazaram a informação (de propósito, é lógico) de que a Sony Music havia registrado 13 composições creditadas ao Daft Punk em um sistema internacional de direitos autorais, mas as faixas não tinham nome, apenas eram reconhecidas por “Track 01”, “Track 02”, e o tempo de cada uma. No total, dava 74 minutos de música (o álbum acabou ganhando uma bônus, “Horizon”, chegando a 78 minutos). Daí já se sabia que sim, devia mesmo ser verdade que o Daft Punk iria colocar algo novo nas prateleiras, no iTunes, no ThePirateBay, no som do seu carro. O marketing viral e de guerrilha havia começado.

Na sequência – mas não exatamente nessa ordem – a dupla tomou atitudes curiosas. Durante o megafestival Coachella de 2013, houve um momento em que, entre uma apresentação e outra, uma vinheta do Daft Punk surgiu nos telões do evento. Um deles tocando baixo, outro na bateria e o Pharrel Williams nos vocais. Foram alguns segundos, mas serviram para confirmar que o disco teria a participação de Williams, Nile Rodgers, Julian Casablancas e Giorgio Moroder. Cogitaram até que eles apareceriam no Coachella, mas não subiram em nenhum palco. Como soubemos depois por meio de uma longa matéria da Rolling Stone Brasil, a dupla estava no Coachella, à paisana, para averiguar esse ato de publicidade. Bangalter e Homem-Cristo gostaram muito do resultado, que foi a empolgação geral do público do festival.

E então apareceram uns três caminhões brancos bem grandes circulando pelas ruas de Tóquio. Cada um deles com a ilustração dos capacetes característicos e a inscrição “Random Access Memories” na carroceria e o nome DAFT PUNK bem na frente. Não sei se transportavam alguma coisa realmente, ou se só queriam atrair a atenção. Mas deu certo!

Daft Punk com a equipe Lotus, da F1, no circuito de Mônaco
Daft Punk com a equipe Lotus, da F1, no circuito de Mônaco

E então começaram a divulgar o que seria a principal música de trabalho do disco, “Get Lucky”, com Nile Rodgers na guitarra e Pharrel Williams na voz. Soltaram umas 20 versões da canção e ninguém sabia mais qual era a final, embora todas fossem bem parecidas. Cada dia, uma nova “Get Lucky”. Melhor do que isso foram os incontáveis boatos de que a dupla faria uma apresentação surpresa em algum lugar, programa de TV ou whatever, mas nunca apareceram. Isso continuou acontecendo mesmo depois do lançamento do disco e sempre fica aquela dúvida: foi tudo armado mesmo ou os franceses deram o cano em apresentadores de TV?

Até na Fórmula 1 eles se enfiaram. Na etapa de Mônaco, uma das mais tradicionais do esporte, a equipe Lotus correu com a estampa do novo disco e o nome da dupla nos carros. Nem imagino o quanto isso custou, já que a F1 é um dos esportes mais caros do planeta.

Por fim, quando todo mundo já estava sedento esperando o disco completo, o Daft Punk anuncia que o lançamento seria em Nova Iorque? Tóquio? Paris? Londres? Los Angeles? Cidade do México? São Paulo? Cubatão?… Não, eles lançaram em Wee Waa, pequena cidade do interior árido da Austrália. Quando a informação saiu, ninguém botou muita fé. Deve ser outra trollagem da dupla, coisa exótica demais até para eles. Mas aconteceu mesmo no 79º Wee Waa Show pra 4 mil fãs do Daft Punk.

Em 21 de maio de 2013 o disco finalmente saiu. Semanas antes, estava inteiro na internet, disponibilizado para audição streaming pela própria banda.

Daft Punk com Pharrel Williams e Nile Rodgers
Daft Punk com Pharrel Williams e Nile Rodgers

As músicas, o disco

Quem ouviu os três álbuns anteriores sabe que o Daft Punk cria boas canções – algumas bastante chicletes – e permeia seus trabalhos com uma boa dose de experimentação. Eles não são referência só por causa dos hits de rádio, como pode pensar quem só ouviu “Get Lucky” e “One more time” inúmeras vezes nas ondas da FM. Eles são referência em inovação sonora. Por isso todos os produtores e artistas ficam de ouvido em pé quando Bangalter e Homem-Cristo estão em ação. Só o marketing descrito acima já atesta a veia criativa de ambos, que são a imagem do artista do século XXI que faz a arte e sabe vendê-la também, nos moldes do artista plástico Damien Hirst.

Random Access Memories é muito bem equilibrado entre música pop dançante e acessível e música exigente, experimental e inovadora. É também o primeiro trabalho da dupla que não tem nenhum sampler: tudo que você ouve é original e foi gravado especialmente para o disco. E tudo é classudo demais. “Give life back to music” é um grande exemplo disso. Guitarra com distorção levinha nos acordes iniciais arrebatadores e então entramos num ritmo funkeado e vocal distorcido característico do Daft Punk. E é um funk gostoso de acompanhar. E aquela guitarra do Nile Rodgers? Totalmente cool.

“Lose yourself to dance”, uma das melhores do disco, é um convite para não ficar parado. É tudo sobre dançar e se deixar levar mais uma vez pela guitarra de Nile Rodgers. As montagens com dançarinos negros dos anos 70 que circulam pelo YouTube não são desprovidas de motivo. É uma faixa totalmente dedicada aos nightclubs negros de 40 anos atrás. “Get lucky”, não precisa nem dizer, foi a música do ano. Uma aula de condução e ritmo novamente nas seis cordas de Rodgers e Pharrel Williams conseguindo a maior projeção de sua vida como cantor.  Foi a melhor música-boa-e-chicletona dos últimos anos. Williams contou em entrevista que precisou gravar diversas versões do vocal de “Get lucky” porque “os robôs são exigentes”. Um indício de que o Daft Punk sabia muito bem para onde iria. Nessa pegada mais pop, temos ainda “Fragments of Time”, com Todd Edwards nos vocais. E “Doing it Right”, com a participação do Panda Bear, do Animal Collective, é basicamente uma batida e um vocal distorcido funcionando como se fosse um instrumento de base harmônica da música. Uma boa sacada.

Entre as lentas, temos a romântica “The game of love”, excepcional em sua produção meticulosa. Sua linha de baixo exerce a função não de “carregar” a canção, mas de causar acentuações precisas e discretas. Além disso, um teclado – ou enorme mesa de som especial – produz solos caprichados. A aveludada “Within” traz o vocal filtrado pela “estética Daft Punk” e detalhes sonoros para bons fones de ouvido. “Instant crush” traz Julian Casablancas no vocal e um solo de guitarra destilado por processadores digitais. E “Beyond”, com vocal daftpunkeano e mais narrativo sobre uma base parecida com a usada em “Give life back to music”.

Entre as músicas mais lentas, dançantes ou funkeadas predomina uma abordagem mais suave, sem grandes altos e baixos, mas pegando o ouvinte pelos detalhes que dão profundidade às canções e não param de manter o ouvinte em estado de prazer. Já as canções mais experimentais tiram você desse estado tranquilo e relaxado. Para isso, o Daft Punk usou uma mesa criadora de sons enorme construída especialmente para eles – e muito cara. Desse equipamento único conseguiram extrair diversos novos sons que aparecem a todo momento no álbum, principalmente nas faixas experimentais.

“Giorgio by Moroder” é um tributo a Giorgio Moroder, um dos pioneiros da dance music eletrônica. A faixa já abre com ele contando que tocava guitarra na adolescência e queria ser músico, mas vivia numa pequena cidade. Depois conta que ia para as baladas da Alemanha, dormia no carro e tal. Então queria fazer música que fosse como aquela dos anos 60 e 70, mas que soasse como a música do futuro. Fazendo um álbum, e usando os sintetizadores (que eram os “sons do futuro”) ele incluiu o clique, que foi tanto o som do futuro como teve um tremendo impacto na música. E enquanto Moroder narra isso, o Daft Punk toca a trilha sonora de sua história, incluindo os cliques. Com mais de 9 minutos, é uma das mais interessantes de Random Access Memories. Riff de sintetizadores, uma passagem em jazz bem suave do que acredito ser um teclado e uma guitarra, orquestração e um crescendo fenomenal que eleva a dinâmica da canção. Na sequência tem uma espécie de solo de baixo sobre scratches de DJs e riff de guitarra para terminar. Como se vê, o tributo a Moroder é um tributo à Música.

“Motherboard” é uma faixa instrumental em que muitos efeitos vão surgindo e se sobrepondo a uma percussão bastante quebrada, bem diferente dos ritmos bem marcadinhos das faixas mais dançantes do registro. Após uma pausa, a faixa recomeça fazendo sons cavernosos, marítimos e espaciais que atestam o podem da “motherboard”, a mesa de som única que Bangalter e Homem-Cristo usam. Mas fazem as experiências sem perder de vista a musicalidade. “Contact”, outra instrumental, é espacial e aerodinâmica, mais uma vez testando os limites de criação sonora do equipamento do Daft Punk. Se grande parte do disco é aveludado, essa faixa tem uma levada quase rock’n’roll na bateria. E usam um efeito que soa como uma chaleira fervendo água em níveis cada vez mais elevados em um forno atômico (!!!). É sensacional.

Random Access Memories é o melhor trabalho que o Daft Punk já produziu. Todo o conjunto é de uma finésse impressionante. Não é preciso ser fã de música eletrônica ou de dance anos 70 e 80 para apreciar. E há essas características inovadoras presentes que elevam o disco a um patamar mais alto que a maioria dos DJs mais comerciais que só fazem hits e parcerias encomendadas (toma, David Ghetta!). Um álbum que já nasceu fazendo parte da história.

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Comentários

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    […] gosta de ritmo – como foi o Happy do Pharrel Williams e as partes mais acessíveis do excelente Random Access Memories do Daft Punk –, mas também é aquela black music lançada por white people que sabe não […]

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    […] de Wilson e lembram as passagens mais experimentais que vão tanto de um Pink Floyd quanto de um Daft Punk. O operador da máquina não se furta a criar fraseados marcantes e subir e descer escalas como um […]

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    Rutembergue Viana

    (27 de junho de 2017 - 18:11)

    Que matéria perfeita.Muito bem escrita com um tom de humor vez ou outra, detalhada, completa nas informações. Sinceramente sem palavras para descrever o quão foi empolgante e nutritivo de informação ler esta matéria, mesmo que 3 anos após ela ser escrita. Meus parabéns ao escritor Lucas Scaliza que me deixou sedento por ler mais artigos musicais neste mesmo formato de texto descontraído e feito com dedicação e amor. PS: Primeira vez que leio algo aqui (buscando por Daft Punk) e certamente não será a última.

    […] também soa como se – permitam-me divagar – o LCD Soundsystem chamasse o The Weeknd e o Daft Punk para compor uma música de dance […]

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