Leonard Cohen – Popular Problems (2014)

Sem pressa, Cohen canta blues como Tom Waits

Por Lucas Scaliza

Popular Problems abre com “Slow”, um blues bem marcado e nunca agressivo. Surge então a voz rouca e grave, ressoante e envolvente como nunca do poeta canadense Leonard Cohen. Já deixa claro nos primeiros versos que será uma música – e um disco – sobre reflexões da idade e o ritmo “lento” que deve acompanhá-la. Afinal, quem quer adiantar o que é inevitável? Cohen, quase octogenário, prefere aproveitar o passeio da vida, já não tem pressa de chegar a lugar algum. É uma continuação dos temas de seu último disco, Old Ideas (2012), que lhe rendeu grandiosas e elogiadas apresentações ao vivo durante sua última turnê.

O disco sai oficialmente dia 22 de setembro, mas já pode ser ouvido na íntegra no streaming da NPR.

“Almost like the blues” é quase um suspense urbano da década de 1920 com jeito de anos 1980. Tem uma linha de baixo que carrega a canção. E se já parecia que tinha algo de retrô, a escolha de timbres no órgão, no teclado e no baixo em “Street” confirma a influência do som feito 30 anos atrás.

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Cohen soa muito como Tom Waits em Popular Problems. Seu cantar é menos melodioso e mais calcado no ritmo das palavras, como o estilo narrativo de Nick Cave. A gravação de sua voz é um destaque a parte: chega a nós tridimensional, grave e cristalina. Sua dicção ajuda muito a tornar tudo palatável à primeira vista. Nada de harmonias complexas ou instrumentação intrincada. É tudo escolhido para fazer a voz brilhar e criar nuances agradáveis. Nesse sentido, não é um disco com instrumentação tão protagonista quanto a que os Sensational Space Shifters fizeram para as músicas de Robert Plant no recém-lançado Lullaby and… The Ceaseless Roar. Mesmo assim, é um disco mais musical do que Old Ideas.

E se algo de Tom Waits já pairava no ar, quando a voz de Cohen deixa sua garganta e atinge o microfone no início de “Did I ever love you” é fácil confundi-lo com Waits. Fica clara a influência do jeitão de cantar arrastado e carvernosamente do americano sobre o canadense. Dois gentlemen tão das antigas quanto atuais, é claro. E o refrão dessa música se permite render a um country animadinho.

Patrick Leonard, que produziu muitas obras da Madonna, entende bem o tempo que Cohen busca e o ajuda a reproduzir características do cantor fugindo de extravagâncias que não cairiam bem à sua vontade de levar uma vida mais pacata, sem correria e sem as invencionices de estúdio. A música de Cohen soa, mais uma vez, honesta do começo ao fim de Popular Problems. Se em Old Ideas, muito bem recebido por crítica e público em 2012, ele se portava como um homem procurando a beleza na calma e na economia de meios, desta vez ele mantém o mesmo espírito, mas o carrega com maior musicalidade. “Nevermind”, por exemplo, às vezes se mantém apenas com voz e baixo. Cohen nunca soou tão misterioso.

O álbum termina com a terna “Born in chains” e com a suave “You got me singing”. Atestam que Cohen é honesto simplesmente por ser simples. Ele não é um vocalista, por isso deixa a função mais melódica para seu coral de vozes femininas. Ele narra as letras ao invés de cantá-las. E quando as canta, o faz sem sobressaltos, sem querer parecer algo que não é, sem arroubos histriônicos que cantores e cantoras de programas como o The Voice adoram usar para cair no gosto do público e dos jurados.

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Cohen, do alto de seus 79 anos de vida, sabe evitar essas jocosidades – como Nick Cave evita desde a década de 1990 e como Tom Waits também – e sabe deixar de querer impressionar os impressionáveis. Esse hábito criado pela televisão de confundir quem grita ou canta notas altas apenas para impressionar faria com que uma voz ressoante como a de Cohen e sua elegância estilística nunca funcionassem em programas como o The Voice.

Mas para além do The Voice e de programa qualquer caça-talentos (que nunca revelaram ninguém de peso artístico até agora), Popular Problems é uma escolha certeira de Leonard Cohen em todos os sentidos. Tudo funciona se você está disposto a ouvir suas histórias e acompanhar seu passo com calma e tranquilidade. Passeio curto, de apenas 36 minutos, mas feito para durar.

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