Interpol – El Pintor (2014)

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Para colocar a banda de volta nos trilhos

Por Lucas Scaliza

Nos primeiros 10 minutos de audição de El Pintor você tem certeza de que o disco valeu a pena pela faixa “My Desire”, que é excelente. Então você acha que talvez a banda de Nova York não vá conseguir superá-la nos 30 minutos restantes do disco e… é surpreendido novamente. Mesmo que nada ali supere a grandiosidade e o embalo de “My Desire”, há muitos outros momentos que valem a pena e transformam El Pintor em uma obra bem equilibrada, que consegue ser acessível e fugir do óbvio.

Quando o Interpol surgiu no fim dos anos 90 com o disco Turn On The Bright Lights (1997), eles soavam graves, urbanos e góticos, mas não de um jeito afetado e “histórico”: era dark e soturno, mas não sepulcral, como às vezes o gótico europeu dá a impressão de ser. Era uma banda estranha no mundo pop daquela época. Com o tempo, outras bandas igualmente estranhas foram surgindo, as bandas indies constituíram um nicho de mercado importantíssimo e o próprio Interpol ficou mais bem encaixado dentro do mercado.

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El Pintor (o nome é um anagrama de “interpol”) não foge dessa situação. A banda não está se reinventando e nem voltando ao seu próprio passado (não espere algo como “Say Hello to the Angels” no novo trabalho, ok?). Mas fazem músicas repletas de bons momentos. As guitarras usam muito delay e são as responsáveis pela maioria dos arranjos, como “All the rage back home” deixa claro assim que apertamos o play.

Paul Banks (voz, guitarra e baixo), Daniel Kessler (guitarra e piano) e Sam Fogarino (bateria) dão ênfase à energia: todas as composições funcionam porque a banda parece saber o que quer e faz rock alternativo pulsante. Claro que sobra espaço para arranjos e levadas mais diferenciados, como ocorre em “Same town, new story”, mas a pegada pop/rock nunca esmorece.

“My blue supreme” não é uma das melhores faixas, mas o refrão consegue grudar em sua mente. “Everything is wrong” coloca três guitarras para tocarem arranjos diferentes simultaneamente. “Breaker 1” é simples e arrastada, com um teclado opressor mantendo a harmonia sob pressão constante. “Ancient ways” até lembra algo do início da banda. Bateria e baixo constantes mantém a faixa empolgante. “Tidal wave” é outra das melhores músicas do álbum. Linha vocal gostosa de seguir sobre uma bateria de ritmos mais quebrados nos versos e um refrão com hipnótico que seríamos de cantar junto por vários minutos seguidos, acompanhado por um arranjo de guitarra simples e um teclado que torna a música mais interessante.

Se o álbum passado, Interpol (2010), parecia o ganido de uma banda que estava se perdendo já há algum tempo – afinal, tinha se distanciado bastante da proposta sonora de seu início e enfrentava grane concorrência nos EUA e nas ilhas britânicas –, El Pintor coloca o grupo novamente em um trilho que fãs novos e antigos podem apreciar. Não é o melhor trabalho dos nova-iorquinos, mas funciona como Mechanical Bull funcionou em 2013 para o Kings of Leon: restabelece a esperança para a banda, mostra que ela pode ter um futuro animador e fazer composições que pelo menos cumprem muito bem o papel esperado de uma banda de rock.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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