Ryan Adams – Ryan Adams (2014)

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Disco bem americano é legal, mas não será uma virada em sua carreira

Por Lucas Scaliza

Mês passado, o norte-americano Ryan Adams lançou 1984, um disco com 10 músicas e nem 15 minutos de som. Era uma pedrada animada e vigorosa de punk e grunge. Apesar das faixas minúsculas, o disco me pareceu um exercício de estilo e de síntese que funcionava muito bem. Não havia muita diversidade, mas se encarássemos 1984 como uma única longa faixa, resultava em uma música bem legal.

O impulso hardcore do disco curto acendeu o alerta em mim: prestes a lançar um disco completo e autointitulado, achei mesmo que Ryan Adams seria algo mais comedido e menos visceral.

Acertei.

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O disco Ryan Adams foi liberado hoje para audição completa. Tem guitarra, mas não o vigor de 1984. Além de seu vocal – que é ótimo – Adams mostra canções simples e bem trabalhadas. Os arranjos são o grande trunfo de seu novo álbum, como mostra “Am I Safe” e “Trouble”, por exemplo. Muitas vezes com uma roupagem até mesmo etérea, mas nada de voos pretensiosos aqui e experimentalismos aqui. Muitas faixas – como “Kim”, “Shadows”,“Feels like fire” e “I just might” – são como aviões taxiando na pista. Podem levantar voo a qualquer momento, mas nunca saem do chão.

“Gimme something good” é o primeiro single de Ryan Adams e realmente uma das melhores músicas do disco, marca presença com sons viajantes e batidas de guitarra. “Stay with me” é outra que segue pelo mesmo caminho e tem potencial para tocar em rádios e ser tão boa ao vivo quando “Gimme something good”. “Tired of giving up” e “Let go” são as duas baladas que fecham o disco e outra que fazem a diferença também.

No geral, Ryan Adams é um disco essencialmente americano na abordagem das músicas, na ambientação e nos arranjos. Não por acaso, “My wrecking ball” é uma música western. Embora seja um disco bem legal de se ouvir, não é tão interessante quanto o The Voyager (2014), da cantora e atriz Jenny Lewis ou Morning Phase (2014), de Beck. Acredito que, ao longo do álbum todo, Lewis e Beck tenham acertado mais vezes com The Voyager e Morning Phase. Adams acerta bastante também, mas o ritmo constante de bateria em diversas faixas podem tornar as coisas bem menos interessantes.

Ryan Adams tem experiência suficiente para fazer as coisas diferentes, então não é capacidade ou inspiração que está em jogo aqui. Ele, que está em seu 14º lançamento, decidiu que faria algo desse tipo, mais arraigado à música alternativa tipicamente americana. No final, é um disco bem legal com algumas canções que poderão sobreviver em seu repertório, mas no geral não deverá ser um turning point da carreira.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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