Neal Morse – Songs From November (2014)

Uma pausa no rock progressivo. Na louvação, jamais.

por brunochair

Para começar a resenha, creio ser necessário apresentar Neal Morse ao público que não o conhece. Neal Morse é vocalista e multi-instrumentista americano de Nashville, Tenessee. Tornou-se conhecido mundialmente como vocalista da banda de rock neo-progressiva Spock’s Beard, uma das poucas bandas americanas que se dedicava a esse estilo de música, junto com o Flower Kings, e de certa forma Dream Theater e Pain Of Salvation. Todas essas bandas inspiradas pelos conjuntos de rock progressivo dos anos 80, como Marilion, IQ, Pallas, Arena.

Neal Morse tornou-se muito reconhecido no meio do rock progressivo pelas suas composições, sua habilidade vocal e nos teclados. Entretanto, o rock progressivo parecia não ser suficiente para o cantor. Sentia-se incompleto, infeliz. Em 2002, Neal Morse teve um encontro com Jesus e converteu-se ao cristianismo. Deixou o Spock’s Beard e decidiu sair em carreira solo, com a intenção de louvar a Deus.

Em 2003 lançou o primeiro álbum pós-conversão, chamado Testemony. O álbum fez sucesso, tanto nos meios religiosos quanto do rock progressivo. As letras do álbum falam exatamente sobre o testemunho de Neal sobre a sua conversão: suas inquietações antes de se converter, a conversão, o que mudou após a conversão. Sonoramente, é um dos álbuns mais brilhantes da carreira solo de Neal, tendo a participação de Mike Portnoy (Transatlantic, Ex- Dream Theater) nas baterias e Kerry Livgren (Kansas) gravando algumas guitarras solo. Manteve a sonoridade rock progressivo, mas agora a serviço do Senhor.

Seguido de Testemony, Neal Morse ainda gravou excelentes álbuns solo, como One (2004), The Question Mark (2005) (o que eu considero o melhor deles) e Sola Scriptura (2007)Todos eles foram muito elogiados pelos fãs de rock progressivo, e em todos os álbuns o cantor foi agraciado com participações especiais: em The Question Mark (ou, simplesmente, ?) gravaram para Neal nada mais nada menos que Steve Hackett (ex-Genesis), Jordan Rudess (Dream Theater, LTE), Roine Stolt (Flower Kings, Transatlantic).

Seguido destes álbuns, vieram outros (Lifeline, Testemony 2 e Momentum) com o mesmo intento dos anteriores: louvar a Deus e ao rock progressivo. Entretanto, estes não conseguiram repetir o sucesso dos álbuns anteriores. Parecia que a fonte criativa de Neal Morse para o estilo havia secado. Percebia-se que ele repetia fórmulas de timbres e vocais de momentos anteriores. Neal Morse repetia Neal Morse. E tornou-se entediante ouvir os álbuns dele, já que era apenas louvação sem criatividade musical.

Antes de chegar a análise de Songs From November, interessante ressaltar que o cantor possui um álbum solo antes da conversão, chamado It’s Not To Late (2001). O cantor ainda estava no Spock’s Beard, e decidiu produzir algo com uma pegada totalmente diferente do rock progressivo, mais próximo do pop convencional. E fez um excelente álbum, encorpado e muito bem definido. Não obteve tanto sucesso quanto talvez fosse esperado, foi criticado no meio do rock progressivo, mas ainda assim é um trabalho que ajudou o cantor a expandir seus horizontes musicais.

Talvez cansado, ou percebendo que não está tão criativo no rock progressivo como outrora, Songs From November soa bem mais pop que os álbuns anteriores. Talvez seja um retorno ao pop de It’s no To Late, ou algo mais próximo a ele. Caso alguém (que não conheça a discografia do cantor) ouça este álbum, não vai encontrar um pingo de prog rock. Apenas vai sacar tratar-se de um disco de um cantor americano cristão, descrevendo suas experiências e impressões religiosas. Nada mais que isso. Talvez goste do vocal de Neal Morse, dos instrumentos (que estão muito bons como sempre, por sinal). Mas, enfim, é um álbum bastante “quadradinho”, em que o interesse maior é louvar.

Interessante notar que, quando Neal Morse converteu-se ao cristianismo, decidiu romper com todas as bandas, inclusive com o Transatlantic. A amizade entre Mike Portnoy e Neal Morse, no entanto, não ficou abalada. Aos poucos, Neal retomou alguns projetos com Mike, como o Cover to Cover e o Yellow Matter Custard, além do próprio Transatlantic. Este ano, aliás, o Transatlantic lançou o álbum Kaleidoscope, saiu em turnê e fez a alegria dos dois resenhistas deste blog, quando decidiu passar por São Paulo. Parece que toda a energia rock progressivo de Neal Morse ficou concentrada apenas no Transatlantic.

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Neal “God” Morse tocando com o Transatlantic, no show em SP (Fevereiro/2014). Foto deste que vos resenha.

Ou seja: se deseja ouvir um rock progressivo, ouça Transatlantic. Se quiser ouvir Neal Morse no progressivo, procure outros álbuns, como o já citado The Question Mark. Songs From November é um álbum introspectivo, com uma pegada religiosa, calcada no pop. Até lembrei do Roupa Nova ouvindo este novo álbum do cantor (rs). Aí vai um trecho das músicas, no youtube, para quem deseja conhecer um pouquinho do novo trabalho:

brunochair Autor

Funcionário público, ex-jogador de ping pong amador, curte literatura, música, fotografia, esportes, cervejas artesanais e bons filmes. Meio brasileiro e meio uruguaio, acha que a cidade perfeita é uma mistura de São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu.

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