Judas Priest – Redeemer of Souls (2014)

Judas-Piest-Redeemer-of-souls-album-cover-artBanda está divertida e soa como Black Sabbath, mas mantém-se em terreno oitentista seguro

Por Lucas Scaliza

Vista seu coturno, sua calça jeans, sua jaqueta de couro e sua camiseta de algum ícone do rock e do metal oitentista. Suba em sua moto, coloque seu óculos escuro. Junte-se a sua gangue e pare para tomar uma cerveja em um boteco. A mesa de sinuca logo ali, iluminação baixa e banheiro imundo. Contexto perfeito para ouvir Redeemer of Souls, o disco da clássica banda inglesa Judas Priest que foi lançado mês passado e está muito bem colocado nas paradas dos Estados Unidos.

Se a cena acima parece genérica, com um ambiente e um tipo de situação muito recorrente no imaginário popular de qualquer roqueiro dos anos 70 até hoje, é porque Redeemer of Soul é um disco que remete totalmente ao heavy metal clássico da década de 1980. O disco não está contaminado pelas afinações baixas e nem pela pauleira inaugurada pelo trash metal. Rob Halford canta sem afetação; sim, ele usa notas agudas aqui e ali, mas não chega a atrapalhar o clima do disco. Afinal, é um disco antes da era dos vocalistas de metal melódico. Além disso, todas as faixas são fáceis de acompanhar por qualquer ouvinte, sem quebras rítmicas. O único compasso usado em suas 18 faixas é o 4/4. Afinal, remete a um tempo onde não existia o metal progressivo.

Resumindo: o 17º disco do Judas Priest é heavy metal puro, sem afetações, sem altos voos, sem rasantes, sem experimentação. Não há inovação também, o que pode ser um ponto negativo bastante acentuado, mas é um álbum divertido, perfeito para ouvir na jukebox do motoclube ou daquele boteco de banheiro imundo.

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Os temas são aqueles mesmos de sempre: criaturas da noite, Valhalla, esqueletos que se levantam, espadas lendárias, batalhas épicas. Mas diferente de um DragonForce, as músicas não evocam o clima de fantasia. Tudo permanece sóbrio, sem pender para a pauleira desenfreada. Os ritmos das guitarras de Glenn Tipton e Richie Faulkner são simples, o baixo de Ian Hill faz o que deve fazer e consegue encontrar meios de brilhar sozinho em algumas faixas, Halford não tenta impressionar. Ou seja, o Judas Priest tem senso de ridículo e não faz uma farofa. No entanto, ouvir Redeemer of Souls e sua volta aos anos 80 (com temas que hoje soam cafonas para uma música que pretende ser pesada) é como ouvir uma banda fazendo homenagem e paródia de si mesma e de toda uma época.

É preciso lembrar que há uma boa parte do rock pesado que sempre prezou pela diversão. É o caso de AC/DC e Kiss. Porém, o trash metal do Metallica nos anos 80 foi acompanhado por músicas com temática política e social – sobretudo no disco …And Justice For All – redefinindo o que era o peso: não só guitarras barulhentas e bateria marcante, mas todo o contexto de uma música e disco criavam a intenção de peso e seriedade. E por mais que o Black Sabbath também fosse uma banda para diversão, Tony Iommi tinha uma ótima mão para riffs de metal. Lento e preciso, criando sonoridades perturbantes, o Black Sabbath exalava alguma seriedade. Enquanto essa volta do Judas Priest parece uma divertida autoparódia, o ótimo 13, que Ozzy Osbourne e cia. lançaram ano passado, transpira seriedade e sobriedade.

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Se há essa diferença entre Judas e Sabbath, há também algo que os aproxima. Por manter-se pura ao heavy metal e não acelerar as composições, Redeemer of Soul soa como o stoner rock criado pelo Sabbath. Embora não exista nenhum riff impressionante, todos são simples e muito funcionais dentro das músicas. Os solos de guitarra são um destaque a parte: Faulkner e Tipton souberam criar melodias bonitas de forma que podemos apreciar cada nota tocada. Estão muito longe da fritação exibicionista.

Assim, Redeemer of Souls acaba nem soando tão pesado assim. Once More ‘Round The Sun, recém lançado disco do Mastodon, é muito mais agressivo e técnico. E até Lykke Li e seu I Never Learn, com sua melancolia exposta, tem uma “intenção” muito mais grave do que qualquer faixa nova do Judas Priest. Mas é importante que ainda existam discos divertidos. Nem só de pretensão vive a música. Se não leva a carreira dos ingleses para outros públicos e nem para outro patamar, pelo menos não mancha a discografia e deve render boas apresentações ao vivo.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Black Sabbath – 13 (2013) | Escuta Essa!

    (23 de outubro de 2014 - 12:13)

    […] final de 13 é algo que resgata as melhores ideias e características do Sabbath, diferente de Redeemer of Souls (2014), novo disco do Judas Priest que soa como autoparódia, de tão cheio de fórmulas e clichês […]

    […] Man on the Run é uma recuperação da sonoridade grunge que deverá encontrar seu público, mas é sobretudo um bom disco de rock, um registro animado e que mantém a roda do estilo girando e abastecida com bons refrãos. Não é um disco que vai se tornar clássico ou que vai virar referência para o estilo, mas é um grunge que soa honesto. Mesmo no século 21, em que tudo parece encontrar seu público, algumas coisas podem soar cafonas e datadas. Não é o caso do Bush, mas aí está o Judas Priest para comprovar. […]

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    […] “Constant Heart” remete aos memoráveis riffs criados pela dupla KK Downing e Glenn Tipton do Judas Priest, assim como os gritos do Ralf parecem bastante com os gritos do Rob Halford. A banda troca a […]

    […] “Stand Tall” é um hard rock, com um vocal que lembra o Rob Halford em algumas músicas do Priest antigo e harmonias que parecem algo do prog rock anos 70. “Carnival” é cheia de malemolência […]

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