DragonForce – Maximum Overload (2014)

dragonforcemaximumoverloadcdMais um capítulo da crise de criatividade do power metal

Por Lucas Scaliza

O power metal é um estilo de heavy metal em crise. Não é de hoje que as bandas que se aventuram – com guitarras e espadas, figurinos medievais ou renascentistas e couro – por esse gênero sofrem de uma crônica falta de criatividade.

Tem pelo menos uns 10 anos que o power metal preza pela técnica: tudo tem que ser rápido e pesado. Guitarras na velocidade da luz, bateria reta e direta, o baixo você quase não ouve (e se ouve, é uma linha bem básica, mas veloz), e o teclado cria orquestrações ou atmosferas que deem ênfase na correria de todos os músicos. E o vocalista tem que cantar notas altas.

Tem sido assim com praticamente todas as bandas que entram nesse universo. A banda inglesa DragonForce é a que mais reúne elementos do power metal e os leva ao extremo. Então, se o estilo está em crise, o DragonForce seria, assim, uma espécie de epítome dessa crise. Seu novo disco, Maximum Overload, ressalta mais uma vez que não é esse sexteto que vai salvar, reformular ou trazer algo novo para o estilo.

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Um clichê se torna clichê quando é reconhecido como “saída fácil”, uma solução que acaba sendo repetida diversas vezes em contextos muito parecidos. Ou seja, um clichê é também um elemento que sofre repetição. E é de clichês que se sustenta Maximum Overload. As mesmas técnicas ao longo de todo o disco; ainda cantam temas fantasiosos de batalhas e personagens épicos; e nenhuma surpresa ao longo dos 50 minutos do disco. Quanto tudo é alto, rápido e pesado, nada surte grande efeito. As nuances desaparecem, não há mais como subir a dinâmica e tornar um trecho especialmente memorável. Para não dizer que o resultado é só uma pauleira chata, digamos que as faixas se parecem muito umas com as outras. Aliás, Maximum Overload se parece muito com qualquer outro disco da banda. Ouviu um, ouviu todos.

Pouquíssimos elementos fogem do comum e do esperado. Os solos de guitarra em “The game” e “No more” conseguem não ser inteiramente óbvios. “Tomorrow’s kings” encaixa um solo de teclado, mas que é quase a mesma coisa que um solo de guitarra. “Symphony of the night”, mesmo sofrendo no meio de tantos pontos comuns, consegue ser um respiro que não repete todos os clichés do power metal todo o tempo (mas aposta nos clichês do metal melódico). Em “Extraction zone” há um interlúdio em que o metal arrefece e dá espaço para ruídos, uma leve batida eletrônica e guitarra sem distorção. Talvez seja o trecho mais criativo de todo o álbum.

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O guitarrista Sam Totman e o baixista Frédéric Leclerqc são os compositores de Maximum Overload. Chamaram Matt Heafy, do Trivium, para participar de três faixas. A ideia era tentar diversificar o disco, incluindo elementos de trash metal no som da banda. Em “The game” até há a participação dos vocais guturais de Heafy, mas no meio de tanta coisa veloz, fica difícil achar que uma “pega trash” faria alguma diferença.

Por fim, há um cover power metal de “Ringo of fire”, de Johnny Cash. O resultado é não agrega nada para nenhum dos lados. A interpretação da canção folk resulta num power metal igual a todo o resto do disco. Já que a banda seguiu confortavelmente seu protocolo musical – que agrada a grande maioria dos fãs sedentos por outro som para bater cabeça, não exatamente sedentos por música – perde-se uma oportunidade de mostrar mais musicalidade e mente aberta do que o arroz com feijão de sempre.

Maximum Overload é o sexto álbum da carreira do DragonForce. Um novo capítulo para a banda; mais um capítulo da crise de criatividade do power metal.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    […] Valhalla, esqueletos que se levantam, espadas lendárias, batalhas épicas. Mas diferente de um DragonForce, as músicas não evocam o clima de fantasia. Tudo permanece sóbrio, sem pender para a pauleira […]

    Angra – Secret Garden (2015) | Escuta Essa!

    (18 de dezembro de 2014 - 12:24)

    […] segmentos de música pesada, é o que menos se renova e mais apreço tem por clichês. Está aí o Dragonforce para não nos deixar mentir. Até mesmo o Marilyn Manson, que também não tem se renovado muito, […]

    […] desses pequenos problemas, mas muita gente ama e parece não se importar). Hammerfall, Manowar, Dragonforce e tantas outras seguem pelo mesmo caminho. Portanto, se prefere uma temática mais adulta e um tom […]

    […] Sou da opinião de que o peso e os elementos pesados na música devem ter uma intenção. Do contrário, o peso pelo peso soa esvaziado de sentido e de significado, tornando-se meramente um exercício de técnica, de afinação, de volume e escolha de pedais. Mesmo dentro do heavy metal, as experiências mais sofisticadas estão em bandas que sabem ser pesadas alternando os humores da música. Opeth, Sirenia, Metallica, Iron Maiden, Black Sabbath, Blind Guardian e até mesmo Slayer e Dimmu Borgir logo se deram conta disso e souberam trabalhar bem suas músicas, fugindo de uma linearidade sem graça, como faz o Dragonforce. […]

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