La Roux – Trouble in Paradise (2014)

??O álbum tem suingue e foge do eletro bate-estaca. Já as letras ficam aquém de retratar a mulher contemporânea

Por Lucas Scaliza

La Roux era originalmente um duo, formado pela vocalista inglesa Elly Jackson e o produtor Bem Langmaid. Haviam lançado apenas o disco La Roux em 2008, que ganhou o Grammy de Melhor Álbum Dance/Eletrônico. A banda voltou este ano com trabalho novo, o bom Trouble in Paradise, mas somente com a ruiva Elly Jackson. Langmaid não é mais a outra cara da dupla.

Vamos tirar o elefante da sala logo de cara: Trouble in Paradise é um bom álbum. É dançante, uma mistura muito boa entre elementos orgânicos (guitarra, baixo, teclado, vocais, percussão) e eletrônicos (programações, sintetizadores). Às vezes, lembra o Daft Punk, mas La Roux não é ultrapop. Ainda assim, é pop p bastante para ser amplamente acessível.

Mas apesar de todas as referências de Elly Jackson, o disco não é uma busca estética arrojada como St. Vincent (2014), da St. Vincent. Nem como o triste I Never Learn (2014) da Lykke Li. Nem mesmo climático e dramático como o recém-lançado Ultraviolence, de Lana Del Rey. Mesmo quando o Daft Punk é a referência que nos vem a mente, tem a ver mais com a levada suingada das músicas e o bom gosto geral das harmonias e melodias do que com a experimentação ou o desejo de levar o chamado synthpop ou música dance para outros ares.

Mas Trouble in Paris tem uma alegria, uma sensualidade e um espírito dançante que são contagiantes. Além disso, não há excessos de teclados ou de sintetizadores e Jackson não não está preocupada em nos impressionar com o alcance de sua voz, mas quer nos embalar. Para o seu quarto ou para as pistas de dança, é provável que consiga transformar tudo em uma balada dos anos 80, antes do bate estaca frio e dos efeitos estridentes tomarem o eletrodance.

la-roux1

“Uptight downtown” é em letra e música uma celebração dessa alegria e de uma sensualidade latente. “Kiss and not tell”, por outro lado, soa mais inocente na música, enquanto a letra segue por uma historinha de desejo, em que ela diz: “Por todo o tempo tive sentimentos que não consigo evitar / E tudo o que quero é sair da minha concha”. “Cruel sexuality” aposta numa pegada mais próxima de Austra, uma historinha de sexo egoísta sobre uma música que não é rebelde ou agressiva. “Paradise is you” é uma das melhores músicas de Trouble in Paradise, com ótima linha vocal e ótimos arranjos. A letra é uma protocolar dedicatória de amor a alguém que é comparado a uma praia com coqueiros, que lembram o paraíso.

“Sexotheque” é divertida, no melhor estilo Katy Perry, mas sem a pegada ultrapop. É sobre um stripper em um clube noturno (“where the red light shines”) e que não retorna as ligações e tem muita grana sobre o corpo. “Tropical chancer” traz um embalo mais latino e notadamente oitentista ao álbum, com um ritmo constante e uma guitarra bem discreta, deixando para o teclado e voz as funções melódicas mais marcantes no refrão. “Silent partner” tem bateria eletrônica, um sintetizador que faz as vezes do baixo e um teclado pronto para completar o som. Embora tenha 7 minutos de duração, a canção não se transforma e não fica mais interessante do que apresentou em seu primeiro minuto. “Let me down gently” é a primeira música de trabalho do disco. Apresenta um crescendo gostoso de acompanhar até sua virada, quando todos os instrumentos entram em cena. Mais uma vez somos jogados numa pista de dança dos anos 80, mas dessa vez há muita coisa interessante acontecendo ao mesmo tempo.

La Roux faz um disco acessível a todo tipo de público. Fãs do eletrodance bate-estaca e barulhento podem não curti-lo tanto assim. Corações românticos, apaixonados e doídos poderão encontrar algo a que se apegar. Mas as letras de Elly Jackson, embora bem escritas, são mais adolescentes do que se esperava. Lykke Li, Sharon Van Etten e Lana Del Rey conseguem falar de si mesmas e da condição dessa mulher contemporânea com muito menos clichês (e muito menos unanimidade também, mas é aí que está o risco e a graça dentro de um álbum de música que pretende ser algo mais do que apenas diversão). Trouble in Paradise é bom, mas poderia ser melhor se fosse mais arriscado.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    […] casos adolescentes. Embora seja bastante acessível e divertido, The Voyager não é dançante como Trouble in Paris, recém lançado disco de La Roux. Também não é “absurdamente intimista” como o ótimo We […]

    […] Canções como “Alive Tonight” e “Your Girl” seguem muito a perspectiva de La Roux em seu Troubles in Paradise (2014). E também temos faixas poderosas, como a abertura “Hot to Touch” e a ótima […]

    […] álbum. “People On The High Line”, o funk dançante, com piano house e vocais reforçados pela La Roux, teve seu pulso determinado por Chapman. Aliás, Chapman pode ser novato na banda, mas tem uma […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.