Rosa de Saron – Cartas ao Remetente (2014)

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Novo disco é o que se espera da banda: uma pedrada cheia de emoção

Por Lucas Scaliza

Não há surpresas em Cartas ao Remetente, novo álbum do Rosa de Saron. É uma pedrada carregada de distorção, poderosos refrãos e muito sentimento. É, assim, o que já esperávamos de um dos grupos de rock católico mais produtivos e mais bem sucedidos do país. O novo trabalho está todo disponível na internet e pode ser ouvido neste link.

A banda segue em seu estilo roqueiro barulhento e cheio de emoção. Mesmo alcançando um público cada vez mais amplo, o quarteto não tentou deixar o som mais limpo ou mais pop. Pelo contrário: as guitarras continuam soando pesadas, baixo e bateria têm pegada, as letras continuam longas e o vocal de Guilherme de Sá continua rouco, alto e rasgado.

Mesmo tendo uma clara filiação religiosa, o Rosa de Saron não faz letras que tratam o tema ou falam de Deus, Jesus, Espírito Santo e outras entidades católicas diretamente. Principalmente desde que Sá assumiu boa parte das composições do grupo, as letras tornaram-se mais abertas a interpretações. A mensagem está lá, mas de forma indireta. Cabe ao ouvinte juntar uma informação na outra, um contexto no outro, e ficar esperto para não confundir um clamor de amor a Deus com um clamor de amor a uma mulher. Ou talvez seja justamente essa ambiguidade que as letras de Sá buscam. Afinal, o amor é universal (e outros temas abordados pela banda também são).

2014 - BANDA ROSA DE SARON - CRÉDITOS RODOLFO MAGALHÃES

Mas o fato é que essas letras que possuem mensagem mas não tratam o tema religioso explicitamente são parte da chave do sucesso do Rosa de Saron: até mesmo quem não vai a igreja ou não está muito preocupado com Deus tem a oportunidade de ouvir um som autêntico e de entender as mensagens. Em Cartas ao Remetente isso continua firme e forte. Outra parte do sucesso está no fato de a Som Livre ter começado a distribuir o DVD Acústico e ao Vivo para fora do meio religioso, o que ajudou público e banda se encontrarem com maior facilidade.

“Reis e princesas” e “Verdade/Mentira” são as faixas que nos apresentam ao som típico do Rosa. Boas introduções, riffs precisos e pesados, orquestrações, a voz rouca de Guilherme de Sá e solos inspirados de Eduardo Faro. “Solte-me”, “Cartas ao remetente” e “Meus dedos” são típicas baladas hard, especialidades do Rosa. Ao mesmo tempo que evocam um tom mais sentimental, demonstram bastante força. “Nada entre o valor e a vergonha” é quase como uma faixa do U2, por conta da quantidade de delay na guitarra.

Se precisasse escolher um destaque no disco, seria Eduardo Faro. Seja nas bases, nos solos, riffs ou nos fills, ele consegue se manter acima da média. Alterna levadas de power chords com dedilhados e riffs, sempre com as seis cordas bem cravadas no rock’n’roll. Consegue encontrar um jeito de tocar para cada faixa soar única, sem ser repetitivo, fazendo com que Cartas ao Remetente seja mais bem equilibrado e criativo nesse sentido do que o disco anterior, O Agora e o Eterno (2012).

Há também faixas com protagonismo do violão, como “Fleur de ma vie”, cujos versos em francês soam ainda mais arrastados na voz rouca de Sá. “Quando tiver sessenta” é um dos destaque do disco. Ótima letra com longa narrativa, no melhor estilo Renato Russo. A dobradinha violão e teclado aqui cria uma atmosfera bastante aconchegante. De volta para as guitarras, “Algoritmo” é outra ótima composição com orquestração bem encaixada que ajuda a elevar a dinâmica da música quando necessário.

O único porém em Cartas ao Remetente é a voz. Depois de tanto tempo à frente da banda e de tantas novas músicas, as linhas vocais de Guilherme de Sá acabam ficando um pouco manjadas. Nada que comprometa o resultado ou qualidade das músicas, mas quando há muitas canções em um mesmo disco (só disco novo tem 14) é bom ter um pouco de diversidade estilística para não cansar o ouvinte e reforçar a impressão de como cada faixa é única. E a voz pode ser elemento chave nessa diferenciação. Um pouco mais de diversidade traria frescor às melodias ganho de estilo ao repertório da banda.

De resto, é o que se espera: um rock competente, direto, letras que tem um objetivo e músicas carregadas de energia por mais de uma hora. Seja para o meio religioso ou secular.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Alex

    (15 de setembro de 2014 - 15:14)

    Falar “as guitarras continuam soando pesadas, baixo e bateria têm pegada”, certamente o editor não escuta muito outras bandas do meio religioso. Católico, inclusive…
    Sugiro que escute o disco DESERTO, da banda católica Iahweh, e perceber o quão “pesado as guitarras soam” de verdade…

      Lucas Scaliza

      (15 de setembro de 2014 - 17:15)

      Para efeito de resenha, as guitarras não precisam soar pesadas em comparação com o Iahweh, banda que o editor inclusive viu ao vivo no Summernight 2014. As guitarras (ou qualquer outro instrumento) do Rosa soam pesadas em comparação com o que a própria banda apresenta desde que surgiu e de acordo com a sua proposta sonora.

    […] falando. Neste sentido, são letras muito parecidas com as das bandas brasileiras de rock cristão Rosa de Saron e Oficina G3. É o secular a serviço do divino, portanto. E acredito que boa parte do sucesso do […]

    Scalene – ÉTER (2015) | Escuta Essa!

    (11 de junho de 2015 - 13:11)

    […] canções mais equilibradas do trabalho. É uma alternância muito presente nos últimos álbuns do Rosa de Saron […]

    robson barbosa braga

    (30 de julho de 2015 - 00:33)

    adoro de mais essa banda

    […] “Refúgio” e “Soprano” destoam do resto. Mais sóbria e grave, “Refúgio” tem clima elegíaco e parece uma composição alinhada com uma influência cristã que Anitelli já havia evidenciado em outras canções de discos anteriores. “Soprano” é a solitária canção folk de Allehop. Leve e fluida, não segue a estética de 80% do disco. Nenhuma delas traz grandes novidades para o ouvinte, mas ajudam a diversificar o trabalho. A sanfona em “Soprano” traz um ar mais sulista aO Teatro Mágico, enquanto “Refúgio” parece uma composição que, caso tivesse guitarras distorcidas, poderia figurar no repertório do Rosa de Saron. […]

    Skillet – Unleashed (2016) | Escuta Essa!

    (4 de setembro de 2016 - 15:35)

    […] é o fato dos integrantes serem cristãos. Assim como o Red, P.O.D e os brasileiros da Oficina G3 e Rosa de Saron, os caras trazem letras comuns que possuem como base ideológicas os princípios […]

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