Gazpacho – Demon (2014)

Cover

Progressive-folk-art rock. Soa pretensioso? E é. Banda norueguesa lança disco hermético e esotérico

Por Lucas Scaliza

Nunca tinha ouvido falar da banda norueguesa Gazpacho até receber um e-mail do selo KScope, que cuida de boa parte do que há de melhor, mais inventivo, mais pretensioso e mais obscuro no rock progressivo europeu. Lançam discos por esse selo Steven Wilson, Tim Bowness, Anathema, Katatonia, Ulver, Marillion e uma série de outros grupos e artistas em projetos paralelos experimentais. Então digamos que ver uma banda dentro desse catálogo chamou a minha atenção.

O Gazpacho é uma banda com oito discos na carreira que foi formada no final dos anos 90. Como os integrantes eram fãs de Marillion, chegaram até a excursionar com a famosa banda de prog pela Europa entre 2004 e 2005. Embora seja uma banda de rock com voz, teclado, guitarra e baixo, o Gazpacho tem outros instrumentos em seu som: bandolim, violino, acordeom, banjo, violão. Isso faz com que soe multiétnico, com diversas influências que até mesmo fogem do escopo do rock e da música pop. Assim, podemos chamar o som deles de progressive-folk-art rock. Soa pretensioso? E é. Afinal, estão com a KScope.

Demon, que lançaram este ano, é mais uma jornada sombria e multicultural. O som muda constantemente, os instrumentos entram e saem de cena criando diversas seções em cada faixa. É um trabalhando bastante complicado de composição e de arranjo que nem sempre soa o melhor ou o mais fluido possível, mas ainda assim é uma grande experiência musical que não tenta se manter dentro das fronteiras do rock.

Demon tem apenas quatro faixas, sendo três delas bastante longas. Ao todo, são 45 minutos de música. É um desses trabalhos cheios de significados e mistérios, que flertam com o esoterismo e que até a arte da capa e do encarte do CD ajudam a contar a história. Para fãs de Tool, Pink Floyd e outras bandas que gostavam de esconder pistas ao longo de suas obras, pode ser um prato cheio.

gazpacho cd

Segue um faixa a faixa para que você tenha uma ideia da diversidade sonora dessa banda.

1. I’ve Been Walking Part 1: com mais de 9 minutos, começa lenta, com vocal vacilante e assombrado de Jan Henrik Ohme, até que toda a banda mostra as garras, com destaque para a bateria, em que Lars Erik Asp improvisa fraseados que preenchem o som do riff inicial da música. Logo depois, cai em uma sequência mais melodiosa, com violão e, em seguida, um trecho climático e orquestrado. E é assim que essa faixa segue, alternando instrumentos em primeiro plano e humores. É uma música com bons momentos, mas que não mantém o ouvinte constantemente empolgado ou interessado. Para fechar, há um solo de violino de Mikael Kromer.

2. The Wizard of Altai Mountain: é a única faixa com curta duração, apenas 4’53”. Diferente do resto do disco, não tem clima assombrado. Consegue até mesmo a soar uma mistura de folk celta com abordagem pop, mas usando diversos instrumentos incomuns de percussão, órgão e flauta. Da metade para a frente, a música se torna uma animada mazurska (uma espécie de valsa do leste europeu), tempo em 3/4 que usa e abusa do acordeom de Stian Carstensen.

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3. I’ve Been Walking Part 2: com 12’30” de duração, é uma faixa mais sóbria que a primeira parte e mais segura do clima que quer construir. Piano e voz dão o tom correto para uma faixa que soa gótica e nos coloca nos corredores de um castelo da Transilvânia. A música tem boas guinadas que não confundem e nem atrapalham a fruição do ouvinte.

4. Death Room: são 18’30” de música, que já começa com uma escolha de notas dissonantes em loop, executadas por Kromer no bandolim. A voz é distante e abafada, sem falar nos efeitos sonoros que vão criando o suspense, cortesia do tecladista Thomas Alexander Andersen. Faixa lenta, como aqueles filmes que não tem pressa de assustar. Lá pela metade, ela volta a evocar a música do leste europeu, fica um pouco mais animada e deixa bandolim e acordeom darem o tom do trecho. Mas logo em seguida volta o tom menor, a guitarra arrastada de Jon Arne Vilbo e o piano Andersen construindo a atmosfera de desespero.

Por fim, Demon é um daqueles discos que demora para cair no gosto do ouvinte. Não é palatável à primeira audição e nem à segunda, acredito. Quem não está acostumado com as mudanças de humores do rock progressivo da década de 1970 pode ter um pouco mais de dificuldade em assimilar a musicalidade desse trabalho. E mesmo para os iniciados pode soar um pouco estranho a princípio. As canções, tão herméticas quanto esotéricas e não fazem questão de atingir um público mais amplo.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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