Real Estate – Atlas (2014)

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Pequeno ensaio sobre o porquê de Atlas, do Real Estate, poder ser considerado um álbum conceitual

Por brunochair

A forma pela qual se dá a fruição da arte (seja ela qual for) como bem se sabe, alterou-se muito com a industrialização e reprodução técnica. Uma das mudanças foi a desnecessidade da música ser apreciada apenas em eventos públicos. Rádio, vitrolas, gramofones, estéreos surrando o som, computadores, ai podes, celulares e caixas com entradas para pen drive tocando funk em ônibus público. Mudançazinha gritante, de um século para cá.

Deixando de lado o artefato e voltando mais para a questão da fruição auditiva, uma questão: quando se diz que algum cantor(a)/banda lançou um álbum, qual é a proposta que ele pretende obter com isso – Comercialização, popularização? Erudição, algo que agrade aos seus pares, apenas? Algo bacana, que soe bem aos ouvidos, mas que ainda assim possa vender bem? Tem duas ou três músicas que pretendem estourar na rádio, e o resto que se dane?

Dos dois mil para cá, aparece a internet e muda toda essa forma de fruição. A produção musical também alterou-se muito, não há dúvidas. Uma delas é a desnecessidade de se tocar em rádios e televisão, e mesmo assim ter um público razoável, notoriedade. Mas isso já não existia? Sim. A música erudita, por exemplo, preferiu manter uma certa distância dessa mercadologia e reprodutibilidade. Embora usufrua dela, em alguns momentos, situações e condições.

O ponto onde quero chegar é o seguinte: o álbum como forma de arte. Você pegar um vinil, um CD, um arquivo em mp3 e ouvi-lo inteiro, e encontrar ali algo que realmente una as músicas. A composição, na íntegra. A parte que, sem o todo, não faz sentido algum. Não apenas um emaranhado de acordes, sons precisos e imprecisos, emoções, letras e desvarios. Tanto em relação às letras, quanto a sonoridade. Sem pensar nas músicas de trabalho, sem pensar única e exclusivamente em ganhar dinheiro.

O álbum poderia estar condenado à morte, já que pode-se lançar uma música na internet, e por ela fazer sucesso? Sim. Como exemplo cito o Psy, aquele coreano maluco e colorido. Ele não precisou de um álbum para ficar famoso. Antes da internet até existiam as bandas de uma música só, mas elas precisavam lançar um álbum com outras músicas, para que estes pudessem ser comercializados e, a partir daí, o sucesso só ganhar o seu caminho. Não é um álbum, e sim apenas um CD. Uma coisa.

E, como ponto de resistência do álbum como forma de expressão artística, não há como esquecer de citar a definição de álbum conceitual, rótulo que surgiu a partir da criação artística principalmente de bandas dos anos 70, entre bandas de rock/ rock progressivo. The Wall e Animals, do Pink Floyd; Foxtrot, do Genesis; 2112, do Yes; Sgt. Peppers, dos Beatles. Alguns exemplos, dentro de tantos e tantos possíveis. E esse fenômeno não parou nos anos 70: Radiohead, com o Ok Computer, Dream Theater e o Scenes From a Memory, só para citar bandas completamente distintas e contemporâneas, também lançaram álbuns com uma proposta conceitual.

Você termina de ouvir o álbum, compreende que ali há uma proposta. Quer você goste, ou não. E, em muitas ocasiões, tenha vontade de emoldurar aquele álbum em alguma parede, lindo que é. Obs: e embora essa idealização de emoldurar algo em parede signifique que elenquemos, alcemos ou vislumbremos a arte pictórica como a mais notada arte? Que reducionismo isso, hein… deixa pra lá. rs.

Tenho observado, neste ano de 2014, muitos artistas desenvolvendo álbuns conceituais. E álbuns bons. É o caso do Silva, em Vista pro mar. É o caso do Cloud Nothings, em Here and nowhere else. E, com a proposta simples de fluir outro álbum muito elogiado pela crítica, comecei a ouvir Atlas, da banda norte-americana Real Estate.

Atlas é agradável desde o início aos ouvidos. Quando terminei a audição pela primeira vez, precisei repetir. Tinha alguma música, alguma parte que havia agradado demais. E logo descobri se tratar da música “The Bend”. Ela é incrível, aquela intro de violão acompanhada de uma percussão ritmada, seguida de um solo de guitarra tranquilo e majestoso. Quando o vocalista Martin Courtney entra na música, ela já está lá no alto e sua voz deixa a canção ainda mais brilhante. Eles não deixam a música cair em ponto algum, e acredito ser a música mais bonita que eu ouvi este ano.

Eis aqui uma versão ao vivo da música:

Em uma das críticas que estão por aí na internet, disseram que Atlas é um bom álbum para se ouvir dirigindo na estrada. Definitivamente, é. Mas não apenas para se ouvir na estrada, e sim no trabalho, em casa, cozinhando, jogando, vagabundeando.

É gostoso, acalma, faz bem. A atmosfera que ronda o álbum faz dele um álbum conceitual. As letras da música, também. Bonitas, vagas, despretensiosas, tanto quanto o álbum em si. Como exemplo, segue um fragmento da música “Primitive”, minha preferida dos últimos tempos:

“When the night is young in the land I’m from / The seasons ghost away / The starts at night obscured by light /Can still lead me though this […] Don’t know where I want to be/ But I’m glad that you’re with me / And all I know is it’d be easy to leave”

Enfim, é um álbum grandioso. Belíssima obra de arte. Não pretendo emoldurar e colocar em uma parede, mas sim ouvi-lo mais algumas vezes e recomendar aos amigos que possam ouvir e comungar de uma boa música.

Para quem curte de Beatles a Creedence, Doobie Brothers a Johnny Cash, eis uma boa pedida. E a boa notícia é que a banda vem ao Brasil no fim do ano! Ainda não há datas definidas, portanto é bom estar ligado para ter a chance de conferi-los ao vivo.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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