Damon Albarn – Everyday Robots (2014)

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O inglês que já fez pop, rock, soul, rap, hip hop, funk e até ópera consegue se reinventar de novo falando sobre a solidão em seu primeiro disco solo

Por Lucas Scaliza

“Construtivista” seria a melhor palavra para definir Everyday Robots? Ou “experimental”? Estranho, esquisito, quem sabe?

O caso é que a música indie está melancólica em 2014. Não só os novos álbuns de Beck e Lykke Li seguem essa tendência, mas até mesmo o Coldplay, que agitou estádios com milhares de pessoas, gravou um novo álbum mais triste. Cada um deles tem seu mérito, mas só Damon Albarn uniu a melancolia a uma estética diferenciada, fazendo de Everyday Robots não só mais um álbum de música alternativa triste, mas sim um disco com experiências e incursões sonoras dignas de serem notadas e anotadas. Nesse quesito, Albarn se iguala a John Frusciante e seu bonito, mas estranho, Enclosure.

Líder e compositor de três bandas diferentes (Blur, Gorillaz e The Good, The Bad and The Queen) o inglês Damon Albarn não cabe mais em rótulo algum. Pop, britpop, rock, punk, hip hop, rap, funk, soul, indie e até mesmo ópera (Dr Dree, de 2012) ele já fez. É um dos artistas mais fecundos e mais interessantes da ilha da rainha Elizabeth. Everyday Robots é seu primeiro disco solo e traz não só alguns elementos a que já nos acostumamos a ouvir em seus projetos (como sua voz suave), mas também características completamente novas: novos ritmos, novos instrumentos e não-instrumentos, um novo approach à música do século XXI, indo muito além do flerte eletrônico.

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Grande parte do álbum mantém o tom introspectivo de Albarn. “Everyday Robots” é basicamente piano, voz e sons em loop de materiais criando ruídos, chiados e percussões. Em alguns momentos ouvimos uma discreta orquestração. E tudo será assim no disco: discreto, sem arroubos ou explosões. A fantasmagórica “Hostiles”, a intimista “Lonely Press Play” e a arrastada “You and Me” seguem a mesma fórmula e soam muito bem dentro da proposta do disco. O menos é mais.

Embora igualmente econômica, “Mr. Tembo” é uma canção mais animada e menos arrastada. Foi composta por Albarn para um bebê elefante órfão que ele encontrou em um zoológico na Tanzânia. “Heavy Seas of Love”, uma das melhores de Everyday Robots, fecha o disco também elevando o astral, mas sem deturpar o conceito de economia da obra.

“The Selfish Giant”, “Hollow Ponds”, “Photographs (You Are Taking Now)” e também a acústica “The History of a Cheating Heart” apresentam intervenções de chiados e incursões de efeitos que vem e vão. Com exceção de um piano ou da suave bateria eletrônica, nada permanece nas faixas o tempo todo.

É um disco íntimo não apenas pela sonoridade. Albarn sustenta que tudo que é dito ou cantado em seus versos de fato aconteceu em algum ponto de sua vida. Daí temos letras como a de “The Selfish Giant”, sobre drogas que o cantor já usou e alguns dos efeitos que sentiu. Também desconfio que as drogas sejam o tema de “You and Me”; a solidão e a incapacidade de se resolver em “Lonely Press Play” e “Hostiles”; as reminiscências da juventude em “Hollow Ponds”, pontuadas de 1976 a 1993; o que é precioso e o que é supérfluo em “Photographs”, em que Albarn canta versos como: In the paints and chords of nature/ All is but a vanity/
And the metronome knows that defeats you/ Is the monochrome that you seek
.

Mesmo “Heavy Seas of Love”, que possui uma mensagem positiva, não deixa de lembrar que mesmo o amor, e tudo o que traz de bom, ainda é uma “imensidão pesada” de se lidar. Prova disso é a faixa anterior, que resume a traição assim: The history of a cheating heart is always more than you know.

Pode levar algum tempo até se acostumar com todas as construções musicais empreendidas em Everyday Robots. Mas o grande trunfo de Damon Albarn é, em qualquer uma de suas bandas, sempre produzir melodias de voz interessantes e bonitas que conduzem sua atenção mesmo pelas passagens mais idiossincráticas da obra. Não é música para multidões. Quase não é uma música que se reproduza facilmente ao vivo. É tão introspectiva para seu criador quanto para o ouvinte, que pode preferir apreciar o disco sozinho em seu carro ou com fones de ouvido. E é exatamente assim que ele funciona melhor.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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