Epica – The Quantum Enigma (2014)

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Se você procura alguma diferenciação dos demais discos de metal melódico da última década, não é em The Quantum Enigma que vai encontrar, mas talvez aprecie a jornada

Por Lucas Scaliza

A banda holandesa Epica, uma das principais representantes do metal melódico sinfônico, lançou em maio seu sexto disco: The Quantum Enigma. É o primeiro com o novo baixista, Rob van der Loo. Com mais de 68 minutos, o álbum é tudo o que fãs de power metal e metal melódico esperam. Para quem procura surpresas… bom, elas não existem aqui. Mas o Epica representa muito bem seu estilo e com muita competência.

O principal atrativo do disco é, ainda, a alternância dos vocais cristalinos de Simone Simons e a voz gutural do guitarrista e líder do Epica, Mark Jensen, ex-guitarrista do After Forever. “The Second Stone”, por exemplo, não só alterna o vocal de ambos com também abre espaço para o canto coral, outra característica do grupo.

The Quantum Enigma usa e abusa de coros épicos e de passagens sinfônicas vultosas, dando a TODAS as faixas um clima grandiloquente de batalhas épicas ou grandes acontecimentos da era renascentista. Enquanto isso, guitarra, baixo e bateria fazem sua parede sonora pesada e direta, para delírio dos fãs de power metal. A introdução de “The Second Stone” é um exemplo, com seu riff de guitarra hiperveloz.

Há poucos momentos em que a sonoridade do álbum muda ou cria um clima diferente, o que torna The Quantum Enigma um disco pobre em nuances diferenciadas. Para efeito de comparação, o Into The Maelstrom (2014) do Bigelf consegue ser heavy metal e hard rock sem perder a veia inventiva, sem ter medo de ser plural e colocar mais elementos musicais ao seu caldeirão musical, tornando o álbum e a imagem da banda ainda mais excêntrica e interessante. Em 2011, o Nightwish, outra banda de metal sinfônico, lançou Imaginaerum. Além do metal gótico de sempre, havia no disco temas instrumentais celtas, composições mais teatrais aproveitando a alternância de dois tipos vocais, e até ecos de blues em uma balada dark. São esses tipos de nuances que faltam ao novo trabalho do Epica.

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Se falta originalidade, pelo menos de produção e execução técnica o disco não carece. Além dos seis membros da banda, mais de 20 músicos tocam no disco para criar todas as passagens sinfônicas e cantos corais. “The Second Stone”, além de possuir riffs de guitarra e um solo hipervelozes. “The Essence of Silence” tem tanta instrumentação que silêncio é algo que não se aplica a ela. É exemplo também de como o Epica consegue criar bons refrãos que resolvem bem a música. Embora a voz gutural de Jensen sempre torne as faixas mais agressivas, elas nunca perdem o clima épico e fantasioso.

As guitarras de Jensen e Isaac Delahaye soam agora como as de John Petrucci, do Dream Theater. O instrumento tem um timbre moderno e pesado em The Quantum Enigma, complementando a pegada precisa do baterista Ariën van Weesenbeek. Isso fica bem claro em “Victims of Contingency” e “Chemical Insomnia”, uma das melhores do álbum. Em “Chemical Insomnia” ouvimos um refrão com Simons quase em canto lírico e bons riffs de metal na guitarra durante os versos.

Não há músicas ruins em The Quantum Enigma. Aliás, a estrutura musical de todas as faixas é muito bem resolvida para comportar as características do Epica e acomodar peso, orquestração, coral e dois tipos de vocal. O que falta mesmo é algum diversidade, justamente para que alguns elementos tenham mais destaques em algumas faixas do que em outras. Como tudo é grandiloquente e cheio de som neste disco, as características não encontram espaço para brilhar individualmente em cada faixa.

É no fim de “Natural Corruption” que está o melhor solo de Delahaye no novo trabalho. Ainda que relativamente veloz, ele preza o feeling e não a execução técnica fria para criar um solo metaleiro. E “The Quantum Enigma – The Kingdom of Heaven Part 2” é o melhor exemplo de originalidade do disco. A faixa consegue distribuir vários elementos interessantes e climáticos ao longo de seus quase 12 minutos, sem afobação para decolar ou soar pesada. Lá pela metade, consegue até virar uma balada com dedilhado de guitarra para logo depois deixar soar um belo solo.

Se você é fã do Epica, vai gostar. Se você não liga para os clichês do power metal, vai gostar também. Se você procura alguma diferenciação dos demais discos de metal melódico da última década, não é em The Quantum Enigma que vai encontrar, mas talvez aprecie a jornada.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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