John Frusciante – Enclosure (2014)

Fruscianteenclosure Guitarrista entrega trabalho experimental e melancólico, buscando novas formas de sincretismo musical

Por Lucas Scaliza

John Frusciante sempre foi um elemento importantíssimo no Red Hot Chili Peppers e ajudou a banda a ser conhecida pela sonoridade que faz até hoje, independente do guitarrista que ocupe ou que já tenha ocupado seu lugar no grupo. Mas quem conhece RHCP, não conhece Frusciante em carreira solo. Ele já flertou com o eletrônico, com o hip hop e The Empyrean (2009) é um álbum que transborda sentimento.

Enclosure, que saiu este ano, é um incrível trabalho de musicalidade em que Frusciante procura meios diferentes de se expressar. O disco todo é repleto de guitarra. Às vezes existem até mesmo três delas sendo executadas ao mesmo tempo, cada uma responsável por uma camada da música. Mas é interessante notar também como a percussão eletrônica é uma aliada do guitarrista. Praticamente todas as faixas apresentam quebras rítmicas e uma percussão que ora desacelera, ora acelera, ajudando a conduzir a tensão da música. A faixa que abre o disco, a instrumental “Shining Desert”, é um exemplo disso e um resumo de tudo que você encontrará ao longo de Enclosure.

E não tem rock? Sim, tem rock, mas Frusciante está mais preocupado com a exploração, não com o rock. O estilo surge de vez em quando, como forma de expressão, porque o guitarrista está mais interessado em encontrar novos jeitos de combinar elementos. Quem espera algo parecido com o estilo seguro do Red Hot Chili Peppers poderá estranhar muito esse disco, a menos que já esteja familiarizado com os voos solos de Frusciante.

John-Frusciante-grabando“Sleep” é uma montanha russa. “Run” não facilita para o ouvinte. Além do ritmo quebrado e das intervenções eletrônicas, mais camadas de melodias estranhas vão se somando a ela. “Stage” até tenta manter o ritmo, mas no final acaba tornar-se mais soturna para Frusciante fazer um solo esquisito, como se a guitarra tivesse sido gravada e executado ao contrário.

Não é possível, e nem faria bem algum, ficar comentando faixa a faixa sobre quais loucuras Frusciante constrói as canções de Enclosure. É preciso ouvir atentamente, mais de uma vez se possível, para entrar no jogo de linguagem musical que ele nos propõe. Não é em momento algum um álbum fácil ou de apelo comercial. Também não soa como um estudo. É música para valer, com roupagem experimental.

Apesar das constantes mudanças de humores, ritmos, tons, escalas e andamentos, você aos poucos nota que todas as faixas do disco preservam uma mesma alma amarga e melancólica. Se a estrutura parece um caos, o clima do disco penetra em seu cérebro. E se der uma chance a esse Frusciante criativo, penetrará também em seu coração.

Em suma, Enclosute é uma confusão linda de se ouvir. John Frusciante continua criando uma forma de sincretismo musical.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    AntimidiaBlog

    (15 de junho de 2014 - 14:22)

    Republicou isso em reblogador.

    […] O caso é que a música indie está melancólica em 2014. Não só os novos álbuns de Beck e Lykke Li seguem essa tendência, mas até mesmo o Coldplay, que agitou estádios com milhares de pessoas, gravou um novo álbum mais triste. Cada um deles tem seu mérito, mas só Damon Albarn uniu a melancolia a uma estética diferenciada, fazendo de Everyday Robots não só mais um álbum de música alternativa triste, mas sim um disco com experiências e incursões sonoras dignas de serem notadas e anotadas. Nesse quesito, Albarn se iguala a John Frusciante e seu bonito, mas estranho, Enclosure. […]

    Warpaint – Warpaint (2014) | Escuta Essa!

    (5 de novembro de 2014 - 17:57)

    […] da carreira por John Frusciante (ex-guitarrista do Red Hot Chili Peppers que lançou o experimental Enclosure este ano) e Josh Klinghoffer (atual guitarrista do RHCP e parceiro de Frusciante). Frusciante mixou […]

    […] hop, com o trip hop, com música eletrônica alternativa e chapada. Em 2014 ele lançou o ótimo Enclosure, que misturava sua guitarra, seu vocal rouco e diversas batidas eletrônicas quebradas e […]

    […] tanta projeção afugentou o guitarrista John Frusciante, que não soube lidar com tamanho sucesso repentino e exposição. Começou a usar heroína, […]

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